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Manfred Alfonso Dasenbrock

Pessoas ajudando pessoas: conheça os princípios do cooperativismo

O presidente nacional do Sicredi e da Central Sicredi PR/SP/RJ, Manfred Alfonso Dasenbrock, fala sobre a importância da ajuda mútua, os desafios e aprendizados com o cooperativismo

Nascido em Rolante, no Rio Grande do Sul, Manfred Alfonso Dasenbrock viveu a infância na colônia de Missal, no Paraná. Durante os estudos no Colégio Agrícola começou a vivenciar o cooperativismo, com o estágio na Cotrefal (atualmente Lar Cooperativa Agroindustrial). Foi uma trajetória ligada ao modelo de colaboração que se estende até hoje. Presidente nacional do Sicredi e da Central Sicredi PR/SP/RJ, foi reeleito, em julho de 2020, como membro do Conselho Mundial das Cooperativas de Crédito (World Council of Credit Unions – Woccu, no original em inglês). Nessa entrevista destaca a importância do propósito e da união para encontrar no coletivo as soluções para o futuro.

Modelo secular, o cooperativismo tem como princípios a colaboração, a solidariedade e o desenvolvimento da sociedade. O que esse modelo de negócio tem a nos ensinar nos dias de hoje, e especialmente no pós-pandemia?

O cooperativismo é o modelo secular de organização com base em princípios, em fundamentos. Os principais que nós encontramos dentro dessa raiz são a ajuda mútua, a solidariedade e a cooperação. Então, nesse momento de pandemia, olhamos para esses princípios e vemos que faz todo sentido. Em momentos bons e também em momentos não tão bons, precisamos colaborar. Cooperar com as autoridades, com os decretos, com a saúde, com o bem-estar. Temos que ser solidários em torno da nossa família, nossa comunidade, da nossa organização. E, acima de tudo, nós temos que ajudar a preservar o meio ambiente, as condições favoráveis para olharmos para frente. Esse momento também nos ensina que quando uma organização tem missão e valores, possui uma sustentação e a percepção de que olhar pra frente realmente vale a pena. Isso é feito com muita tranquilidade e serenidade. Porque você tem uma razão, uma motivação para acordar um pouco mais cedo, dormir um pouco mais tarde e fazer o melhor em prol de uma causa.

Atualmente conceitos como capitalismo consciente e negócios de impacto têm ganhado força. Qual é o papel do cooperativismo nesse novo contexto em que o propósito ganha protagonismo?

Nós somos uma sociedade de pessoas, enquanto cooperativa, mas também uma sociedade de capital. Somos uma instituição financeira que segue princípios, regras e normas. E, dentro desse conceito, o mais justo que encontramos na nossa sociedade, entre o capitalismo e, vamos dizer, o socialismo, seria cooperativismo, que coopera em prol do bem comum. Isso que tem um nome novo, que é o capitalismo consciente. É o zelo por todos os fatores de produção: terra, capital e trabalho, incluindo também as condições ambientais adequadas. Uma organização como o cooperativismo preza pela transparência. Procura ser a mais justa para a melhor distribuição de resultados e o melhor o atendimento às  necessidades do associado. Por isso, acredito que essa visão do capitalismo consciente tem a ver com o nosso propósito, que é construir juntos uma sociedade mais próspera. Estamos falando em construção, progresso e prosperidade contendo as melhores condições para as comunidades.

O mundo está mais cooperativo?

Nós entendemos que o mundo está mais cooperativo quando olhamos para a crescente adesão de novos associados em cooperativas. As pessoas estão se propondo a fazer parte de uma sociedade que tem estatutos, regras, leis e princípios. Onde a cooperação é o principal valor, bem como a ajuda mútua e a solidariedade. Verificamos ao redor do mundo um contingente com mais de 270 milhões de associados de cooperativas denominadas de Credit Union. São mais de 250 milhões de clientes dos bancos cooperativos, que têm apenas a nomenclatura diferente, com os mesmos princípios e valores. Estamos vendo praticamente mais de 600 milhões de pessoas ligadas às cooperativas de crédito e quando olhamos isso de forma direta, estendendo para o conjunto de pessoas impactadas podemos considerar mais de 1 bilhão de pessoas impactadas diretamente ou indiretamente. O cooperativismo é um movimento crescente em diversos países, incluindo os mais capitalistas como os Estados Unidos e o Canadá. Percebemos uma adesão crescente de pessoas, inclusive em momentos de crise, como verificado em 2008, por exemplo. Nesses período tivemos um crescimento de associados e agora estamos vendo da mesma forma porque tem essa razão. As pessoas encontram no cooperativismo algo mais humano, fraterno e que se preocupa com a realidade e necessidade das pessoas.   

O Sicredi tem grande atuação em pequenos municípios, alguns onde a instituição é a única financeira presente. Como a instituição tem trabalhado a questão inclusão financeira nos últimos anos e porque essa questão é tão importante para o cooperativismo?

Podemos afirmar que o Sicredi é uma organização, uma força que vem do interior. As cooperativas nasceram em função de necessidades. E, na época, as regras previam cooperativas de crédito rurais e cooperativas mútuas. A raiz principal do Sicredi tem a ver com o setor do agronegócio. Na sequência, vieram as cooperativas de outros segmentos que se somaram. Hoje são cooperativas abertas e plenas dentro deste contexto. O Sicredi atua fortemente e é uma solução adequada para pequenas comunidades onde o modelo preserva as pessoas. Não está focado na rentabilidade do acionista, mas sim no atendimento dos associados. Nesses locais percebemos um grande índice de adimplência e um interesse pela cooperativa, assim como nas comunidades médias e grandes. Além disso, a educação financeira é algo que está dentro do nosso DNA. Desenvolvemos iniciativas voltadas às crianças, jovens e adultos. Levamos em consideração várias camadas da sociedade que necessitam de orientação, consultoria financeira e educação para as boas práticas. O nosso objetivo é que as pessoas entendam as questões financeiras para conquistarem uma boa reserva e condições adequadas para também empreender e, quando fizerem isso, não terem fracassos. Esse acompanhamento ajuda a demonstrar a nossa preocupação com a educação e inclusão financeira.

O conceito de intercooperação também está bem forte hoje em dia. Como o cooperativismo brasileiro dialoga com cooperativas de outros países em busca de impacto positivo global?

A intercooperação é um dos princípios básicos do cooperativismo. Você cooperar entre si e os diversos ramos do cooperativismo, que hoje são sete. Existe uma coordenação por parte da Organização das Cooperativas Brasileiras, no Paraná, da Ocepar, procurando fazer um esforço coletivo em que cada um pode fazer o melhor em prol do outro, de cada organização. Os vários ramos, como agro, saúde, crédito, educação, transporte, entre outros setores, que estão conectados nesse processo, procuram se ajudar. Também buscam se conectar com a Aliança Cooperativa Internacional, que coordena as ações internacionais, e com o Conselho Mundial. Nós temos um vínculo muito grande com o Conselho Mundial das Cooperativas. Eu tenho o prazer de representar o sistema Sicredi nesse movimento. Existe um espírito de muita colaboração com outros sistemas organizados dos Estados Unidos, Canadá, Alemanha. O Sicredi tem uma conexão muito grande com os movimentos alemão, francês e holandês. Esse último, inclusive, é sócio do sistema Sicredi, tem uma pequena participação no banco cooperativo. Existe uma identidade muito grande, a partir dos nossos precursores. Friedrich Raiffeisen, há 150 anos, criou um princípio muito simples de realidade. Ele visava a cobrança de juros menores, atendimento e melhor remuneração àquele que tivesse a sobra. A ajuda mútua foi construída a partir desse processo e é igual entre os países. Nós vamos para a Coreia, China, Japão, México ou aqui mesmo no Brasil e são os mesmos princípios e fundamentos. Encontramos as pessoas sorrindo da mesma forma, apenas com gestos, expressões e costumes um pouco diferentes. Mas, com o espírito de ajudar e colaborar. Nesse momento de pandemia, estamos vendo o quanto de esforço há, de forma semelhante, nas narrativas dos nossos líderes ao redor do planeta. Todos pensando da mesma forma, com mesmo espírito: pessoas ajudando pessoas. Essa é a máxima do nosso cooperativismo.

Qual o maior desafio do cooperativismo hoje?

O maior desafio do cooperativismo de hoje é se manter unido. A união é realmente essencial para seguir em frente. Vai fazer com que a organização pratique a sua missão de forma pontual, combinada e estruturada. No Sicredi nós temos uma missão muito nobre de valorizar o relacionamento e oferecer soluções financeiras. Mas também de agregar renda e contribuir com a sociedade. E nós temos também os nossos valores. Então, nos mantermos unidos, seguindoa nossa missão e usando os valores combinados, aqueles que você não abre mão, como um dogma maior. Esses são os maiores desafios que nós temos. A partir desse momento, você institucionaliza também a questão da profissionalização, capacitação, formação e transparência. E tudo isso faz parte desse conjunto. Ao nos mantermos unidos, vamos encontrar no coletivo as soluções e as propostas para darmos os passos para frente. É ser estratégico e olhar na direção do futuro

O que os princípios do cooperativismo podem nos ensinar em nossas ações do dia a dia?

Os princípios cooperativistas são frases perfeitas e precisam ser colocadas em prática todo dia, por dirigentes e líderes, mas também por cada um que gostaria de somar, ajudar e contribuir. O conceito básico e que considero o principal de todos é a ajuda mútua. No cooperativismo de crédito tem a ver também com você valorizar a sua organização. Quando você tem o excedente financeiro, deixar na cooperativa e quando você precisar você buscar as soluções na cooperativa. Usar os serviços, valorizar a organização. Isso, por si só, é algo que também nos ensina a ser solidários. Nos momentos bons estamos juntos e também nos momentos não tão bons. Ser fraterno, acolher as pessoas e ter esse espírito de inclusão, como algo forte, é uma característica do cooperativismo. Ter todas as pessoas em volta, independente da situação que cada pessoa se encontre. Ser inclusivo, ser diverso, ser fraterno, ter o espírito da solidariedade e também da ajuda mútua. Tudo isso olhando o grande guarda-chuva chamado cooperação.

Manfred Alfonso Dasenbrock

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