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Clóvis Capalbo, a memória viva de Jaboticabal

Visitá-lo na Livraria Acadêmica, estabelecimento histórico da cidade paulista, é como viajar no tempo.

Havia algo de místico, curioso e impressionante naqueles momentos de contação de histórias. Era como se os segredos guardados por décadas fossem revelados só para nós, ali, no tapete da sala ou no quintal. Sentíamos como se nos dessem uma notícia impactante em primeira mão. Havia pouca ou nenhuma foto sobre os fatos, o que tornava o trabalho imaginativo mais profundo: nossas mentes voavam tentando formar uma imagem sobre aquilo que ouvíamos. Bons tempos esses em que diferentes gerações se encontravam numa roda de conversa: os mais velhos empoderados por saberem que suas histórias importam e os mais novos sedentos por aquela sabedoria.

Clóvis e um retrato do seu pai e mãe

Não que esse hábito tenha sido completamente extinto, mas a tecnologia inseriu novas formas de comunicação que roubaram um pouco do espaço desse bate-papo “tetê-a-tetê”. Felizmente há quem persevera para que as histórias não escorram pelos dedos enquanto o tempo passa. Seu Clóvis Capalbo, que se tornou um ícone na cidade de Jaboticabal (São Paulo), é uma dessas pessoas nascidas para serem uma espécie de memorial vivo: ele armazena incontáveis registros históricos e é capaz de narrar cada um com riqueza de detalhes. E só foi possível se tornar essa figura justamente porque teve uma infância repleta de histórias faladas e escritas. “O meu interesse pela história vem desde criança. Sempre conversava com os mais idosos e fui armazenando fotos da cidade e dos antepassados”, conta.

A curiosidade do menino era ainda mais alimentada pelo ambiente que o cercava. Clóvis cresceu dentro de uma livraria e papelaria, fundada pelo pai em Jaboticabal em 1931. Desde pequeno já era incumbido de ajudar no negócio da família. Era ele quem buscava e entregava revistas aos assinantes, marcava preços nas mercadorias e limpava a loja. Durante as noites, o lado cultural também era incentivado de outra forma, já que Clóvis ajudava o pai em outro negócio: no atendimento do antigo Cine Paratodos. Não foi à toa que o gosto pela pesquisa e pela escrita foi se desenvolvendo e resultou na elaboração de várias obras.

“Escrevi oito livros. Comecei em 1991 com o livro sobre futebol. Depois fiz mais dois com profundidade histórica da cidade, relatando cronológicamente desde sua fundação. Diante do sucesso desses livros e como tinha um acervo invejável de fotos, parti para uma novidade: lançar quatro livros de memórias  fotográficas com vistas de Jaboticabal e famílias importantes. Esses livros foram lançados em 2002, 2006, 2009 e 2012. Por último, lancei em 2018 a História Social da Cidade, livro centrado em um clube elitista que hoje se encontra abandonado. Desses livros lançados, sobre o futebol e sobre a história social, fiz 800 volumes e os demais tiveram 1500 exemplares. Todos esgotaram, tive uma enorme procura de leitores nos quatro cantos do país, onde moram os jaboticabalenses saudosos”, explica Clóvis, que apesar de todo esses lançamentos, é modesto: não se intitula nem como escritor, nem como historiador. “Considero que sou um curioso pesquisador que ia armazenando escritos e depoimentos”.

Um cantinho saudosista no centro da cidade

Um passeio pela Rua Rui Barbosa, no centro de Jaboticabal, pede uma passadinha pela “difusora da cultura”: a Livraria Acadêmica, um desses estabelecimentos que resistem às transformações culturais e se tornam uma importante ponte entre o passado e o presente. Visitar o local, que tem mais de 90 anos de existência, é ganhar um passaporte para uma viagem no tempo, não só pelos livros que abriga, mas pela presença de quem os vende. “Cresci ajudando meu pai na Livraria Acadêmica e apenas me ausentei quando fui estudar Direito e, depois de formado, exercendo atividades na área  jurídica, jamais deixei de participar do negócio. Era um estabelecimento que a elite frequentava e essa convivência me ajudou nos conhecimentos. A partir de 1969, passei a dirigir a loja”.

E mesmo tendo exercido outras atividades, é na Livraria Acadêmica que Clóvis permanece até  hoje, recebendo as pessoas para aquele bate-papo cultural.

“Poucos conhecem a verdadeira história dos anos dourados e, talvez, pela idade só tenha sobrado eu com lucidez. Até os mais idosos vêm aqui tirar dúvidas”.

Um legado

As próximas gerações precisam absorver a frase do filósofo Confúcio: “Se queres prever o futuro, estuda o passado”. É com essa esperança que Clóvis se dedicou aos livros históricos, entendendo que eles são um guia para que os mais novos entendam o contexto de Jaboticabal e possam trabalhar pelo desenvolvimento da cidade. “Aprendi pela experiência que os meus livros são mais aceitos na área  saudosista. Como vivi minha mocidade no esplendor dos anos 40 e 50, analiso as brutais transformações do que ocorreu, em especial no aspecto comportamental da área  social, já que até para namorar era diferente e os mais velhos eram valorizados como fonte de informação. Deixo para as gerações futuras o legado, a origem e o desenvolvimento do município, esperando que alguma coisa mude”, relata Clóvis, que está, aos poucos, baixando os estoques da livraria e vendendo exemplares raros para alguns sebos da capital.

“Se queres prever o futuro, estuda o passado”

Tanto empenho na preservação da história da cidade já rendeu reconhecimentos: em 2015, Clóvis recebeu uma homenagem durante a V Semana do Livro e da Biblioteca de Jaboticabal. E segue colecionando fãs na cidade e na região.

Clóvis com sr. Abel

“Falar do empresário e escritor Clóvis Capalbo é muito fácil, diante de tantas obras e realizações que fez espontaneamente por Jaboticabal, seria um pecado não exaltá-lo no mais amplo sentido. Conheci-o quando criança frequentando a Livraria Acadêmica Difusora de Cultura no centro da cidade, onde aprendi a admirá-lo e me inspirar nele, onde sigo o mesmo caminho em relação à verdadeira história. Suas 8 publicações literárias são fontes inesgotáveis de saberes. Doou grande parte da vida à pesquisa e preservação, onde deixa para a posteridade um legado sem precedentes em nossa trajetória. Sorte de Jaboticabal ter um cidadão como ele! Bravíssimo!!!” (Abel Zeviani, produtor cultural, assessor de políticas públicas e educador social de Jaboticabal)

Nossa visitinha ao nostálgico e famoso estabelecimento

A Sicredi Aliança tem orgulho de atuar em regiões com gente tão talentosa e engajada. Por isso, o Colabore-se abre espaço para essas histórias inspiradoras. Nossa equipe esteve na Livraria Acadêmica de Jaboticabal. Confira o vídeo:

Livraria Acadêmica de Jaboticabal

Fachada Livraria Acadêmica de Jaboticabal
Livraria Acadêmica de Jaboticabal
Clóvis com os dois primeiro livros
A livraria possui um grande acervo de vinis
Escritora Cora Coralina visitando a Livraria Acadêmica
José Mauro de Vasconcelos em noite de autógrafos na Livraria Acadêmica em 1972

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