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Em casa de alemão, o que se fala é o português?

Entenda como um projeto gratuito está resgatando a cultura alemã na cidade mais germânica do Oeste do Paraná por meio do ensino da língua

Quem chega em Marechal Cândido Rondon logo vê: a cidade respira ares germânicos! Também pudera… O município de pouco mais de 52 mil habitantes fundado em 1960 foi colonizado por alemães e povoado por descendentes de imigrantes da Bundesrepublik Deutschland.

É difícil encontrar algum morador que não tenha um galhinho da árvore genealógica na Alemanha, o que contrapõe outra triste constatação: poucos rondonenses mantêm viva a cultura do país, sobretudo a língua. E é como diz um dos mais influentes escritores do século XX, Franz Kafka (que, por acaso, é alemão): “A única coisa que temos de respeitar, porque ela nos une, é a língua.”

“A única coisa que temos de respeitar, porque ela nos une, é a língua.”

Franz Kafka

Depois de 60 anos de história, é natural que o idioma tenha sofrido influência da língua portuguesa e tenha dado origem ao que alguns estudiosos chamam de “brasildeutsch”, uma mistura da língua alemã com termos do português; e talvez isso justifique a objeção que muitos moradores têm em estudar e aprender a língua da maneira como ela é originalmente.

Mas se ela é, como diz Kafka, o que une a cidade de Marechal Cândido Rondon, como mantê-la viva e, mais que isso, como despertar nas novas gerações o interesse em ter não apenas o inglês ou o espanhol, mas o alemão como sua segunda língua?

A resposta passa por uma professora que cursou Letras/Alemão para conseguir conversar com a dona Erna, sua avó paterna e hoje ensina, com brilho nos olhos, que a língua é o caminho – dos mais belos e encantadores – para promover esse resgate da cultura.

Cristiane Strenske

Cristiane Strenske, 36 anos, é bisneta de alemão. Seus avós nasceram no Brasil, seus pais foram alfabetizados em casa com a língua alemã e só aprenderam a falar português quando começaram a frequentar a escola brasileira. Mas ela e as irmãs não tiveram a mesma sorte. “Eu até conseguia entender o que meus pais falavam, mas não conseguia falar nada. Simplesmente travava”, conta.

“Nesse projeto, além de aprender a língua, o aluno tem muito contato com a cultura. E é bacana perceber que quando eu levo alguma coisa diferente para a sala de aula, sempre tem algum aluno que fala ‘ah, a minha mãe faz isso ou a minha avó faz aquilo’. Eles carregam consigo essas referências familiares e isso ajuda muito no aprendizado”.

Hoje, ela ensina a língua alemã gratuitamente para crianças, jovens e adultos através no Centro de Línguas Estrangeiras Modernas (Celem), um projeto do Governo do Paraná realizado no campus da Unioeste de Marechal.

Mas o desafio da lehrer Cris não é apenas vencer o brasildeutsch. Em suas turmas no Celem, ela ensina desde crianças com 11 anos até senhores que já passaram dos 70. Um abismo que ela contorna com muita didática e jogo de cintura. “Eu sempre passo a atividade geral para a turma e tenho alguma carta na manga para quem está um pouquinho mais avançado. Mas as crianças, às vezes, têm até um nível de entendimento maior porque sempre ouviram em casa, e isso acaba deixando eles mais nivelados”, revela.

Um exemplo de como os costumes familiares influenciam na aquisição do novo idioma, independentemente da idade, é o do Irineu Scheibe, 46 anos, e do Jeferson Arthur Scheibe, 14 anos, pai e filho que estudam na mesma turma do Celem.

Jeferson e Irineu Scheibe, pai e filho que estudam juntos o alemão para manter viva a cultura familiar

Irineu foi alfabetizado em casa em alemão e aprendeu o português, com muita dificuldade, na escola. Já Jeferson não teve contato com a língua alemã durante a infância e agora, adolescente, decidiu entrar no curso para conseguir participar das rodas de conversa da família. O pai, por ter tido muito contato quando jovem com publicações alemãs, tem facilidade para ler e compreender o alemão; mas precisa de auxílio para escrever. Já o filho escreve tranquilamente, mas sofre para pronunciar as palavras. Com isso, um ajuda o outro não apenas a aprender uma segunda língua, mas a cultivar as origens.

“Hoje em dia é muito mais difícil manter a cultura. Os meus filhos têm muito mais influências, da tecnologia, da telecomunicação. Coisa que a gente não tinha na época. A gente levantava cedinho, sentava numa roda pra tomar chimarrão com o pai e a mãe e aí conversava mesmo. Hoje as crianças têm muitas atividades paralelas e não temos mais tanto tempo de contato. E como a gente fala pouco em casa, tem dificuldade de passar isso para os filhos. Então as aulas são muito bacanas pra isso e até para eles aprenderem a forma correta da língua. Eu percebi que muitas coisas a gente falava errado em casa”, conta Irineu, que até hoje mantém o hábito de sintonizar e ouvir emissoras de rádio da Alemanha.

Apesar de ser nítida a presença de elementos da cultura alemã em Rondon, especialmente na arquitetura e gastronomia, a língua ainda é vista com um certo preconceito. “As pessoas desmerecem o ensino por acharem que é muito fácil aprender, que basta conversar com alguém na rua que você aprende. Mas não é assim. Eu queria muito ter aprendido a falar com os meus pais porque aí eu não teria a dificuldade que eu tive para conseguir falar e, depois, lecionar”, acredita Cris.

O projeto das aulas gratuitas de alemão já acontece há três anos e é aberto a toda a comunidade, com único requisito de que os alunos já sejam alfabetizados. Nas klassen da Cris já passaram mais de 50 alunos e isso é o que a motiva e reforça a convicção de que a língua é o caminho mais fácil para não deixar essa cultura morrer.

“Seria muito interessante se tivéssemos um projeto desses com o município, para ensinar as crianças desde muito pequenas”, almeja a professora, que recentemente voltou de uma viagem à Munique e agora incorpora ainda mais elementos culturais em suas aulas, para que a transformação social que ela já promove seja ainda maior, mais completa e duradoura.

“Seria muito interessante se tivéssemos um projeto desses com o município, para ensinar as crianças desde muito pequenas”

Anmeldung offen: matrículas abertas!

Todo ano, sempre em dezembro, fevereiro e março, novas turmas do Celem são abertas para quem deseja aprender a língua alemã gratuitamente. Os interessados podem obter mais informações no Colégio Estadual Antônio Maximiliano Ceretta, ou pelo telefone (45) 3254-1878.

Adaptação na pandemia 

Desde março, as aulas presenciais no Celem estão suspensas por conta da pandemia do novo coronavírus. Mas os alunos estão conseguindo dar continuidade aos estudos através da plataforma online disponibilizada pelo Governo, além de terem encontros virtuais diretamente com a professora Cristiane, que faz questão de auxiliá-los na resolução das atividades para que eles não desistam diante deste novo cenário.

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