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Na trilha da história de Marechal

Projeto Memória Rondonense é um convite para viajar no tempo e resgatar episódios que demarcam a história de Marechal Cândido Rondon e valorizar e preservar as memórias daqueles que abriram e percorreram os caminhos até aqui

Era uma vez… Esse pode ser o marco do início de uma pausa na correria do dia a dia, o começo de um passeio pelo mundo da fantasia, ou, quem sabe, de uma visita a lugares desconhecidos ou onde tudo pode acontecer. Nesta introdução um convite: você aceita fazer uma viagem no tempo? Tente se lembrar das histórias que lhe foram contadas na infância, dos seus livros preferidos e de como eram esses momentos. Respire fundo e, se preferir, feche os olhos para um mergulho nas suas memórias antes de retomar a leitura deste texto.

Lembro-me que, quando criança, costumava reler constantemente os contos infantis, especialmente a história de “João e Maria”. Agora, já mais velha, percebo a dimensão por trás da narrativa. Revisitar histórias tem esse poder. Sabemos que elas estimulam habilidades como a imaginação e a criatividade, todavia o seu papel vai muito além. Elas favorecem o desenvolvimento social e afetivo e, em tempos como este, tornam-se ainda mais valiosas. A história propicia descobertas e conhecendo-a passamos a compreender melhor o mundo e a construir e entender a nossa própria identidade.

Por isso, a história é a matéria-prima de um projeto que busca preservar e valorizar a memória e oferecer a possibilidade de revisitar o passado de Marechal Cândido Rondon e dos municípios que integram a comarca: Entre Rios do Oeste, Pato Bragado, Mercedes, Quatro Pontes e Nova Santa Rosa. Através do Memória Rondonense, os materiais históricos funcionam como as pedrinhas do conto de João e Maria, que indicam o caminho de volta para casa, à origem e essência por trás de uma trajetória que é desbravada diariamente através de publicações de informações e imagens.

O projeto é resultado de um trabalho realizado ao longo de vários anos pelo memorialista Harto Viteck. Apaixonado por história, ele se debruça há muito tempo em meio a pesquisas, tanto que se empenhou em vasculhar informações sobre a origem de seus antepassados, chegando aos sextavós.

“A admiração pela história me acompanha desde que me conheço como gente e ela significa para mim olhar no retrovisor do passado e captar os vestígios da vivência daqueles que nos antecederam. Reunir essa memória é algo empolgante. E não deixar que ela seja enterrada no sulco do esquecimento. Uma vez enterrada, tudo está perdido”

Harto Viteck

Luz sobre o passado e valor às origens

Quando fala-se em história, imagina-se livros antigos e fotos em preto e branco. Mas ela é muito mais do que isso: são imagens e relatos de pioneiros e desbravadores, documentos, hábitos, marchas, disputas, monumentos, desafios, cultura, memórias, origens. É pura riqueza! Porém, de nada adiantaria se os registros desses fatos históricos permanecessem na escuridão, no fundo do baú, nas casas de famílias pioneiras ou de seus herdeiros.

Dessa forma, o projeto evidencia sua importância ao estimular o resgate desse material, fazer a digitalização, datação, contextualização e disponibilização em uma mídia moderna: hoje está tudo na web através do site memoriarondonense.com.br. Antes do portal, lançado em 2015, os materiais já eram disponibilizados em uma página do Facebook.

Atualmente, as duas plataformas são atualizadas diariamente, sempre com novos registros, além da produção de notícias e entrevistas. “Como definiram os gregos: tudo é história. Portanto, para a equipe do projeto Memória Rondonense todos os acontecimentos, registros e curiosidades da esteira histórica, com pertinência ao Oeste do Paraná e, em especial, Marechal Cândido Rondon, merece apreciação e o consequente compartilhamento na plataforma digital”, destaca Harto.

Nas páginas do projeto podemos fazer uma viagem no tempo. Para isso, as informações são dispostas em diferentes espaços do portal, com destaque para o “Calendário Histórico”, por meio do qual acontece a inserção, em ordem cronológica, dos acontecimentos que se sucederam dia a dia na história de Marechal Cândido Rondon e região; “Atualidades e Publicações”, que compartilha trabalhos acadêmicos, artigos e publicações que têm relação com a história do Oeste do Paraná; e “Entrevistas”, que reúne principalmente conversas com pioneiros rondonenses. Além disso, há uma galeria de imagens que guarda registros dos mais diferentes fatos históricos vivenciados na região.

No acervo já são mais de 10 mil imagens, muitas delas ainda não digitalizadas. São registros que retratam períodos diferentes da história do município, como na época em que a região servia como rota de transporte da erva-mate produzida no Mato Grosso e que era exportada até a Europa. Também existe amplo acervo sobre a época da colonização e o período após a emancipação ocorrida em 1960, estendendo-se até os dias atuais.

Essência colaborativa

“A pesquisa, às vezes, é você achar uma agulha no palheiro, mas com insistência, persistência se chega lá”, diz Harto. Por isso, todo o processo de levantamento de dados para o projeto é essencialmente colaborativo.

“Todo mundo tem uma história que merece ser contada”

Além da pesquisa bibliográfica intensa, o projeto Memória Rondonense encontra nos veículos de comunicação locais e regionais as suas maiores fontes. “Essa é a nossa maior e melhor fonte de pesquisa, pois temos toda a bibliografia sobre a história do Oeste do Paraná, que é muita vasta. Os jornais da época de 80, 90 e anteriores de Curitiba, por exemplo, são hoje todos digitalizados na Biblioteca Nacional e lá a gente tem acesso”, comenta, acrescentando: “Nós já fizemos a leitura dos noticiários encadernados da Rádio Difusora de 1966 a 1990. Agora temos que fazer a leitura desses noticiários de 90 a 2014, então são mais 24 anos que a gente tem a tarefa de pesquisar”.

Além disso, a própria comunidade também encontra espaço para ser protagonista neste resgate histórico e contribuir com o envio de fotos e informações sobre suas famílias, fatos ou curiosidades acerca da região. “Todo mundo tem uma história que merece ser contada”, frisa o coordenador do projeto. Um pensamento replicado às mais de 16 mil informações já publicadas no portal.

Porto Britânia. Vê-se junto ao barranco a madeira beneficiada para ser exportada para a Argentina, isso ainda até meados de 1960.

O projeto, que não tem fins lucrativos, é mantido com o apoio financeiro de empresas locais, cuja contribuição é fundamental para o custeio das pesquisas, compartilhamento das informações coletadas e manutenção da plataforma midiática. “Eles são agentes cooperadores desse projeto porque sem esse apoio a gente não ia avançar. Às vezes, por exemplo, é preciso pagar alguém em Curitiba para fazer uma determinada pesquisa. Eu e a equipe somos imensamente agradecidos a todas as empresas que estão colaborando e apoiando esse projeto. Não visamos lucro, nenhum benefício comercial, mas apenas a preservação e o cuidado para que não se percam as informações históricas, os elementos que compõem a história de toda a região”, ressalta.

Rompendo fronteiras pela história

Viagens para pesquisa e levantamento de dados também são tarefas apreciadas pelo projeto com o intuito de desbravar novos cenários e contextos da história local. Além do próprio estado, Harto e outros pesquisadores do Memória Rondonense, por exemplo, já ultrapassaram a fronteira e desembarcaram em Posadas, na Argentina, para coletar informações sobre a região Oeste, especialmente referente às obrages (propriedades típicas das regiões cobertas de matas subtropicais, em território argentino e paraguaio) de Nunêz Y Gibaja, que existia na região do Lopei, entre Toledo e Cascavel; e de Puerto Artaza, que havia na região do distrito rondonense de Porto Mendes e era de propriedade do mítico Julio Tomaz Allica. Em solo argentino, além de material sobre as duas obrages, eles também apuraram informações sobre outras que existiram na região do Rio Paraná, tanto no lado brasileiro como no Paraguai.

Carga de erva-mate descendo pelos trilhos até o navio – Crédito: Expedição Kwasinski.

As obrages tiveram papel importante na região entre o final do século XIX e início do século passado. Ou seja, algumas décadas antes da ocupação massiva da região lindeira ao Rio Paraná, no Oeste do Estado, que se deu com mais intensidade a partir da década de 1950.

Os latifundiários proprietários das obrages, conhecidos como “obrageiros”, eram geralmente estrangeiros. Os peões, que trabalhavam nestes locais em situações de grande vulnerabilidade e exploração, eram chamados de “mensus”, a grande maioria de origem paraguaia. Por sua vez, o obrageiro argentino Julio Tomaz Allica é um personagem que deu origem a muitas lendas, principalmente na região de Marechal Cândido Rondon.

Operários fazendo carregamento de erva-mate e madeira beneficiada em Porto Mendes – Crédito: Expedição Kwasinski.

Em 1908, ele adquiriu terras do Governo do Paraná e, na região do atual distrito de Porto Mendes, instalou a sede da Fazenda Allica, onde também construiu o Porto Artaza, no Rio Paraná, empreendimento hoje submerso pelas águas do Lago de Itaipu.

Harto explica que a empresa explorava erva-mate na região de Campo Mourão e trazia a produção para ser embarcada em seu porto com destino a Posadas, Corrientes e Buenos Aires. “O caminho por onde era transportada a erva-mate é hoje a Avenida Rio Grande do Sul, em Marechal Cândido Rondon. O caminho seguia pelo trecho da atual estrada que vai para Quatro Pontes, Nova Sarandi, Vila Nova e, no sentido oposto, no nosso município seguia para a região da atual Vila Curvado, passava pela avenida da sede distrital de Iguiporã e seguia até a Linha Apepú”, detalha.

Allica entrou para a história local como um homem cruel. Embora falecido em 1942 (possivelmente no Paraguai), os colonizadores de Marechal Cândido Rondon propagaram esta versão, que é corroborada por alguns depoimentos da época em que Allica ainda era vivo.

Sede administrativa, armazéns, casa de máquinas e residência da Cia. Matte Larangeira, em Porto Mendes – foto produzida a partir da margem paraguaia do Rio Paraná

Diante disso, as pesquisas do projeto Memória Rondonenses revelam um pouco mais desse personagem lendário da região, separam o que é comprovado historicamente e aquilo que é folclórico, e trazem novas informações sobre as obrages na região.

Para ficar na memória

O projeto já cativou os rondonenses e moradores de municípios vizinhos, desde os pioneiros até as gerações mais novas. “Eu acho que é hoje uma importante ferramenta para as gerações futuras e para as gerações de agora conhecerem tudo o que se sucedeu na região Oeste do Paraná. Então eu me sinto muito contente quando as pessoas não sabem nem como agradecer quando eu ou alguém da equipe vamos lá [no site e Facebook] e colocamos que um antepassado saiu de tal porto, em certa data, determinado navio, e chegou no Brasil, em tal cidade. Já vi lágrima rolar de alegria por proporcionarmos isso às pessoas”, relata Harto.

O Memória Rondonense, inclusive, é reconhecido por professores, estudantes e comunidade em geral. “As pessoas sempre tiveram interesse em saber sobre a história, mas não sabiam por onde começar, e ver isso diante de si é uma alegria. Eu também tive essas alegrias quando os outros me ajudaram informando sobre antepassados. É algo que não dá para descrever o que as pessoas sentem quando você consegue repassar para elas uma informação da origem delas”, menciona.

Um reconhecimento que já ultrapassou fronteiras e promoveu a construção de laços. “Nós temos acessos do Brasil inteiro e até de fora dele. Já recebemos mensagens dos Estados Unidos, da França, e até teremos o trabalho de um historiador da Polônia compartilhado no site do projeto em breve”, informa.

Para que a memória seja preservada, também é preciso olhar para as pessoas, pois a história de um lugar é uma construção que traz em si as marcas dos sujeitos que dela fazem parte. Tanto os seus fundadores quanto os que continuam trabalhando aqui têm dado sua contribuição para construir essa história que se busca preservar.

Harto Viteck

Por isso, com o objetivo de aprimorar a experiência de viajar pelo passado de Marechal Cândido Rondon através do Memória Rondonense, o conteúdo do site também é constantemente aprimorado. É o caso das reportagens com pioneiros, que falam sobre a época da colonização. Conforme o coordenador, este é um material rico em detalhes de como eram as viagens daqueles que abandonavam seus locais de origem para tentar uma nova vida em um território praticamente selvagem, como era o Oeste paranaense na metade do século passado. “Estamos dando um grande destaque ao nosso trabalho pela chegada dos pioneiros relacionando eles à data e ao mês em que chegaram a Marechal Rondon. Claro que jamais vamos atingir cem por cento, mas estamos tentando fazer o máximo possível”, declara.

Além disso, toda dedicação e estudos empreendidos ao longo dos últimos anos, culminaram na distintivação de Harto como membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (IHG-PR), um instituto cultural, arquivístico e científico localizado em Curitiba, que tem como função a promoção da intelectualidade paranaense. Soma-se a isso o compromisso de contribuir com suas pesquisas e escritos para a missão institucional de preservar o passado e estudar o presente do nosso estado sob as mais diversas formas.

O que ainda precisa ser contado?

“Eu acho que a história nunca termina. Ela roda e retrocede. Lá atrás você vai sempre descobrir coisas que ainda não foram trazidas à luz, então é uma eterna busca de informações históricas. Elas muitas vezes surgem por uma intervenção em determinado assunto pesquisado, outras vêm de forma espontânea, você nem espera. A pessoa diz ‘eu tenho uma publicação guardada lá em casa, um recorte de jornal, e que quer passar uma informação super importante’, e isso eu tenho recebido de muitas pessoas. E é claro que vou aproveitar o material. Vai tudo para a memória”, afirma.

“O projeto não tem um ponto final porque na história não existe isso. Sempre haverá alguma coisa para colher e acrescentar”

Com seis anos de existência, o projeto já conseguiu resgatar conteúdos valiosos da história de Marechal Cândido Rondon, mas tem consciência do seu papel diante de um processo inesgotável: buscar na memória individual e coletiva, a partir dos diversos meios em que ela ainda existe e subsiste, reminiscências de eventos que delinearam o cenário de história de cada um ou da coletividade local e regional. “O projeto não tem um ponto final porque na história não existe isso. Sempre haverá alguma coisa para colher e acrescentar”, finaliza o coordenador.

Para ficar na história

Para que o projeto continue crescendo e novos episódios da história sejam registrados, todos que quiserem colaborar com fotos, vídeos ou informações que ajudem a construir a memória de Marechal Cândido Rondon e da região Oeste do Paraná podem entrar em contato através do e-mail: pesquisa@memoriarondense.com.br ou também pela página no Facebook: https://www.facebook.com/MemoriaRondonense/

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