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Como o projeto “Girls Rock Camp Brasil” atua para criar uma geração de meninas mais fortes

O Girls Rock Camp Brasil está prestes a comemorar 10 anos de atividades no Brasil. O projeto, pioneiro na América Latina e reconhecido pelo UNICEF no Caderno de “Boas Práticas para Empoderamento de Meninas: Como iniciativas brasileiras estão ajudando a garantir a igualdade de gênero”, proporciona para meninas entre 7 e 17 anos uma experiência completa no mundo do rock: aprender a tocar um instrumento, compor uma música, e até apresentar um show para a comunidade. Mas, em meio às notas musicais, estão aprendizados ainda mais importantes: de protagonismo, autonomia e autoestima.

O acampamento é realizado uma vez por ano durante as férias escolares, e dura uma semana. Mais de 500 crianças já participaram e inspiraram a evolução do projeto que, desde 2015, também oferece uma versão para mulheres adultas, o Ladies Rock Camp, que já teve 300 participantes. Mas o impacto na comunidade é ainda maior. Por ser uma instituição sem fins lucrativos, precisa contar com voluntários para organizar os acampamentos. Cada edição tem entre 40 e 90 voluntários para colocar o show no ar.

O Colabore-se conversou com a diretora de projetos e desenvolvimento do Girls Rock Camp Brasil, Flavia Biggs, sobre o projeto, seu impacto e como a música pode ser uma ferramenta para criar uma geração de meninas ainda mais fortes.

O que é o projeto “Girls Rock Camp Brasil”e como ele começou?

O Girls Rock Camp Brasil é uma atividade de empoderamento feminista que usa como ferramenta a música. Essa ideia surgiu nos Estados Unidos em 2001, mas eu tomei conhecimento do projeto em 2003 quando tive a oportunidade de fazer uma turnê com minha banda por aquele país. Conheci o projeto e me apaixonei. Achei sensacional a ideia de estimular a presença das mulheres no rock. Foi por isso que resolvi me voluntariar no projeto nos Estados Unidos. Depois de alguns anos, voltei para o Brasil com a ideia de fazer aqui. Comecei em 2005 com uma oficina de guitarra para meninas, que era o que eu conseguia fazer naquele momento, e dentro das minhas potencialidades, já que sou guitarrista. A partir de então, fui desenvolvendo essa oficina e, em 2013, conseguimos formar uma equipe maravilhosa de voluntários para fazer o acampamento Girls Rock Camp Brasil.

O evento dura uma semana, período em que meninas de 7 a 17 anos têm a oportunidade de aprender a tocar um instrumento, montar uma banda, compor uma música e realizar um show ao vivo. Então, trata-se de uma aventura musical. Somente mulheres, pessoas não binárias e trans realizam as atividades, e nós buscamos oferecer esse referencial de visibilidade e de representatividade. Portanto, é juntar essa turma e vencer esse desafio de  desenvolver, especialmente, autoestima e protagonismo. Além da música, as meninas também participam de oficinas de fanzine, estúdio de gravação, defesa pessoal, entre outras.

O Girls Rock Camp existe nos Estados Unidos e em diferentes cidades pelo Brasil e pelo mundo. Como funciona essa organização?

Surgiu nos Estados Unidos em 2001, e por ser uma ideia tão legal e com uma proposta muito positiva, começou a se espalhar por outros países. Sou do conselho diretor do Girls Rock Camp Alliance, que é uma aliança internacional dos Camps. Os acampamentos são independentes, cada um tem a sua organização, mas, nós somos uma aliança internacional. As pessoas que querem desenvolver esse projeto nas suas localidades podem nos procurar para pegar material, para entender a proposta, se identificar como o Girls Rock Camp e seguir nossos pontos de união. O acampamento é político de empoderamento feminista; nós temos uma proposta de empoderamento social, de inclusão e que não é só música. É um projeto de transformação social-político emancipatório.

Falando do lado musical: é preciso saber tocar um instrumento para participar?

Não precisa ter conhecimento instrumental prévio para participar do acampamento. Nós usamos o método “do aprender fazendo”. A maioria de nós vem da escola do punk, do “faça você mesma”, isto é, de que você pode fazer música com dois ou três acordes e que não precisa, necessariamente, do virtuosismo para poder se identificar como musicista e se expressar por meio da música. A música é uma forma de expressão e de arte, sem ter um formato específico, quadrado. Ela é plural.

Vocês também oferecem cursos fixos, além do acampamento. Só para meninas, certo?

Sim. No começo de 2020, encontramos um espaço para que pudéssemos oferecer cursos permanentes, não só de música, mas também de teatro, dança, artes marciais e criar o Instituto Cultural Girls Rock Camp Brasil, mas, com a pandemia, hoje o espaço está fechado. Estamos acompanhando a vacinação e com a expectativa de retomar as atividades em janeiro de 2022. No momento, os cursos de canto popular, harmonia musical, guitarra, violão, contrabaixo, teoria musical e harmonia funcional estão sendo oferecidos só no formato on-line. Apenas o curso de bateria é de forma presencial.

As atividades são pagas?

Sim. Hoje cobramos valores acessíveis para os cursos e para o acampamento, assim, conseguimos proporcionar conhecimento musical para o maior número possível de pessoas. O acampamento também tem uma porcentagem de participação gratuita para meninas em situação de vulnerabilidade social, encaminhadas por escolas da rede pública. Temos sempre a preocupação de ter a maior diversidade de pessoas participando e isso inclui a diversidade de renda.

Você consegue exemplificar que tipos de atividades são feitas com as meninas para incentivar o protagonismo e a participação?

No acampamento, já nas inscrições, a criança escolhe o instrumento que quer aprender a tocar, e no primeiro dia é montada a banda. Essa identificação de estar em uma banda, fazer parte dela, já incentiva a integração entre as meninas. Esse pertencimento é encorajador e motivador, gera uma efervescência positiva e incentiva amizades.

Com a banda, elas fazem a aula e já partimos para a prática, ensinando as notas musicais no próprio instrumento – ao contrário de aulas tradicionais que trazem mais informações teóricas, e conceitos mais introdutórios. No mesmo dia, as meninas já ensaiam com a banda. A produtora pergunta o que aprenderam no dia e com o que relatam, já começam a compor a música. Tentamos desmistificar e mostrar que fazer música não é seguir uma forma, e sim, se expressar.

Além do acampamento para meninas existe também o Ladies Rock Camp. Como ele surgiu?

O Girls Rock Camp deu origem ao Ladies Rock Camp, que surgiu porque muitas mulheres adultas, familiares, mães de alunas, nossas amigas, comentaram que gostariam de ter  participado de algo como o Girls Rock Camp; então, surgiu a ideia de fazer algo para elas. Trazer o companheirismo que se torna o estar junto com outras mulheres tocando, compondo e se desafiando. O Ladies também existe em outros países. Aqui, começamos em 2015 e tem sido uma experiência maravilhosa. Ao contrário do acampamento para meninas, com esse, vamos mais direto ao ponto. As atividades têm uma temática feminista mais explicita, enquanto no infantil essa abordagem é mais sutil. Então, durante o camp, conversamos sobre questões da sociedade, empoderamento feminista, educação, direitos humanos e outros assuntos que envolvem a vivência das mulheres e LBTs e questões de gênero. Vira um espaço de conexão e autoconhecimento, já que também recebemos depoimentos de mulheres que abandonaram relacionamentos abusivos depois de participar do Ladies Rock Camp. Além disso, nessa semana de atividades, elas podem focar em si mesmas – algo que muitas vezes fica em segundo plano com a rotina de trabalho, estudos, filhos, família – e desenvolver uma atividade mais lúdica.

E o projeto Minha Mãe É Rock’n Roll?

A Mãe Rock’n Roll significa que ser mãe é uma atitude Rock n’Roll. Esse projeto é uma criação do Girls Rock Camp Brasil e surgiu da percepção de que seria interessante se mães e crianças pudessem fazer uma atividade juntas, ou seja, um momento de juntar as duas gerações. Ainda não conseguimos fazer isso presencialmente, pois assim que criamos o projeto veio a pandemia, mesmo assim, realizamos duas edições on-line. Com as mães, falamos sobre maternidade e de temas que também tratamos nos outros Camps, e aí temos um momento de união com as crianças, as quais têm suas oficinas específicas.

O acampamento trata também de empoderamento e feminismo. Como você vê a importância de tratar do tema com quem ainda é criança e adolescente, e com mulheres adultas?

É importante falar desse tema com todas as faixas etárias, mas acredito que quanto antes tivermos acesso à diversidade, às informações de quebra de ciclos de violência, a referências de mulheres que não sejam o padrão imposto pela sociedade, o que, muitas vezes, influenciam no desenvolvimento subjetivo das crianças. São momentos diferentes: trabalhar com mulheres que já estão fragilidades por terem sofrido algum tipo de violência ou que tenham percebido a opressão de gênero da sociedade e crianças e adolescentes. Com elas, você consegue falar sobre autoestima, sobre não ser obrigada a continuar um relacionamento em que não é bem tratada, antes de viver essas situações. Ter esse conhecimento ajuda a evitar que elas entrem em relacionamentos abusivos quando adultas, ou ainda, a acreditar nelas mesmas na escola e no mercado de trabalho.

Quer apoiar esse projeto? Acesse catarse.me/campbr para realizar uma doação ou acesse https://www.girlsrockcampbrasil.org/ para conferir como se voluntariar.

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