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Sementes de esperança cultivadas na infância

Sinônimo de acolhimento, fé e amor, projeto Casa de Maria se debruça sobre valores humanos e trabalha para despertar sonhos e proporcionar o desenvolvimento de crianças e adolescentes em condições de vulnerabilidade

Olhos atentos, curiosos e sinceros, de quem enxerga a vida com amor, mesmo que ainda esteja descobrindo o significado e a dimensão dessa palavra. Na boca, palavras precisas, puras, inteligentes e divertidas. Ser criança não é ser ingênuo ou imaturo, mas saber desfrutar da sua idade sem preconceito. É ter no olhar o brilho do entusiasmo e no coração a sabedoria da inocência. É também ter a capacidade de ser feliz com o pouco ou muito que a rodeia.

Eu poderia estar descrevendo todas as crianças do mundo neste momento – e de certa forma estou -, mas especialmente agora escolho me referir à Lívia Maria Mattes de Oliveira, de oito anos, que participa da Casa de Maria, em Marechal Cândido Rondon. A entidade tem como objetivo promover o desenvolvimento físico, mental, espiritual e social de crianças e adolescentes. 

Apesar de sua timidez, ela não escondeu a animação em compartilhar um pouco da sua rotina. Lembra do significado do amor dito anteriormente? Para ela já está bem claro. “É a minha família”, afirma.

O projeto, para ela, é, acima de tudo, um suporte para o seu crescimento e desenvolvimento tanto físico quanto intelectual. “Às vezes, eu trago as tarefas da escola e tenho ajuda da “prof” para fazer as que eu não consigo. Depois, quando eu termino, eu brinco com um jogo ou leio um livro”, conta.

Entre as atividades oferecidas, as suas preferidas são futebol e judô. E a explicação veio na resposta da pergunta seguinte:

– “Qual profissão você deseja ter no futuro?”

– “Quero ser professora de Educação Física”.

E o caminho parece sorrir para que esse ou qualquer outro sonho possa ser concretizado. Porque, para mim, ela é uma semente de esperança que está sendo regada por gotas de fé, confiança e amor em um jardim chamado Casa de Maria.

Acolher para crescer

Nessa aventura que é ser criança, superar desafios e ultrapassar obstáculos pode não combinar com brincadeiras, mas a realidade ainda assim exige esse enfrentamento.

Impulsionada por esse cenário, a Casa de Maria iniciou os trabalhos no fim de agosto deste ano com a missão de acolher crianças e adolescentes em situação de risco pessoal e social e assegurar a eles o direito à vida, à dignidade e a vivência da cidadania, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna. A iniciativa é da Diocese de Toledo, que já desenvolve esse trabalho por lá há 29 anos e agora resolveu expandir para o município rondonense. “É um projeto que já deu certo, e por isso está sendo fomentada a ampliação para mais municípios da abrangência da Diocese de Toledo: Marechal, Guaíra e Assis Chateaubriand. Marechal Rondon está sediando por primeiro não por ser um município que teria mais problemas sociais, mas pelo imediato interesse da comunidade”, destaca o presidente da Casa de Maria rondonense, Luiz Muller.

A instituição está instalada provisoriamente na Capela Nossa Senhora de Lourdes, no Jardim Alvorada, e recebeu todas as adaptações e adequações necessárias. “No início estávamos em busca de um local para locação, mas não encontramos nada adequado e/ou iria demandar um investimento muito alto para deixá-lo com as mínimas condições. Foi quando surgiu a ideia de utilizarmos nossa própria casa, ou seja, uma capela da igreja a qual já possuía uma boa estrutura, com cozinha, refeitório, banheiros e salas de aula. Foi necessário realizar melhorias no local, mas com a vantagem de que essas melhorias ficarão para a comunidade”, cita o presidente da entidade.

A entidade assistencial atende crianças de seis a 12 anos e, até o momento, conta com cerca de 60 participantes divididos em quatro turmas – duas de manhã e duas à tarde. A partir do próximo ano, a Casa deverá ampliar o atendimento para 90 crianças, que é a capacidade máxima do projeto neste momento.

O perfil dos acolhidos na Casa de Maria são filhos de famílias rondonenses inscritas no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CRAS) e com renda total menor que três salários-mínimos declarados. “A casa possui uma assistente social que faz entrevistas com as famílias e é ela quem efetua a seleção. É possível se inscrever em qualquer período do ano, mas lembrando que uma vez que a criança ingressou na casa, ela continua até atingir a idade máxima, ou até a família não se enquadrar mais nos requisitos iniciais”, menciona Luiz.

Metodologia social e espiritual

Os alunos são atendidos no contraturno escolar e contam com diversas atividades de formação, como reforço escolar, contação de história, musicalização, teatro e judô. São cerca de seis profissionais empenhados em contribuir com o desenvolvimento e a transformação social desses pequenos jovens.

“Nosso objetivo não é ensinar o pedagógico. O objetivo principal é o social. Então aqui o que foi proporcionado até então, e que se pretender ampliar, é oportunizar a essas crianças o que muitas vezes elas não têm na escola. Tem muitas pessoas voluntárias se prontificam também em fazer outras atividades. Em função disso, nos próximos meses, vamos poder acrescentar outras atividades dentro da rotina deles, como informática”, diz Ana Maria Chiappetti, coordenadora e orientadora social da Casa de Maria.

Uma metodologia que equilibra o social e o espiritual, trabalha com valores humanos, como amor, responsabilidade e gratidão, e planta a esperança nos corações das crianças. Um projeto que, acima de tudo, ultrapassa qualquer denominação religiosa. “Mesmo sendo de iniciativa católica, ele acolhe famílias de todas as religiões, pois entendemos que todos têm o direito à vida e que somos todos irmãos”, enaltece o presidente da entidade.

Um respeito que está presente em todas as atividades realizadas pelo projeto, inclusive nos momentos de oração, que acontecem antes do início das aulas e das refeições. “Muitas vezes a criança passa uma vida inteira sem receber nada de espiritualidade, então o objetivo não é direcionar para uma denominação ou outra, mas sim fazer com que ela perceba e entenda que tem um lado espiritual e que ele é bom”, pontua Ana Maria.

Com o cuidado permeando cada atividade do projeto, outro ponto que ganha relevância é a preocupação com a alimentação das crianças, que em alguns casos pode ser comprometida em função da realidade social de cada uma delas. Por conta disso, ela é acolhida pelos profissionais e alimentada. Aquelas que vêm de manhã, por exemplo, tomam café da manhã e almoçam na sede, enquanto as que vêm à tarde recebem um lanche reforçado antes de irem para casa. No período matutino, as atividades iniciam às 07h30, com o “Gotinhas da Bíblia”, que é um momento de oração, e encerra às 11h30. Já no vespertino, começa às 13h30 e finaliza às 17h30.

Fortalecimento de vínculos

Atualmente, há mais de 20 crianças na lista de espera da instituição. “O chamamento dessas crianças será feito conforme a necessidade de cada uma. Abrindo uma vaga, nós vamos chamar não aquela que fez a inscrição primeiro, mas, sim, aquela que tem maior necessidade devido à sua vulnerabilidade”, destaca a assistente social da Casa de Maria, Beatriz Petri.

Elas se sentem bem e é isso que a gente tem que fazer porque estamos aqui para fortalecer os vínculos familiares e comunitários.

Através do projeto, muito mais que conhecimento e brincadeiras, as crianças recebem carinho e atenção – dois ingredientes igualmente valiosos para a sua formação. “Elas se sentem bem e é isso que a gente tem que fazer porque estamos aqui para fortalecer os vínculos familiares e comunitários. Isso é muito importante para que a criança consiga se ver pertencendo àquela família e também à comunidade”, evidencia.

Essa evolução fica evidente também para a família, que é um ponto central na equação. “Conseguimos acompanhar o desenvolvimento em conjunto com a escola e a Casa de Maria, então é algo apenas para evoluir cada vez mais a criança e ter um apoio porque hoje tudo que fazemos tem um custo e aqui eles acolhem as crianças sem cobrar. E como tem várias atividades, é algo que ajuda a gente para que possamos trabalhar e ter um lugar tranquilo e com cuidado para deixar as crianças”, ressalta Maria Eduarda Cardoso, mãe de um dos acolhidos do projeto.

Outro combustível para o trabalho da Casa de Maria encontra-se no despertar de sonhos e possibilidades. “Algumas crianças e adolescentes dizem que não querem ser nada quando crescerem. Aqui tentamos devolver o sonho ou estimular que sonhem pela primeira vez. O projeto devolve expectativas de futuro para essas crianças”, afirma.

Uma expectativa como a da pequena Maya Sofia Vieira Hatfleben, de sete anos, que tem o sonho de ser médica para, segundo ela, “curar as pessoas e conhecer novas doenças”. “Elas têm o direito a um futuro promissor e a gente tem essa obrigação em estar auxiliando na descoberta de como chegar nele”, enfatiza a assistente social.

E, no fim, talvez, não sejam necessárias apenas ações grandiosas para conseguir isso. Voltar-se para o simples também é importante. Afinal, ser criança é ser inesquecivelmente feliz com muito pouco, assim como a Maya é com o bolo salgado e a Lívia é com o iogurte, que são algumas das opções de lanche do projeto.

“Adote uma criança”

O custeio da Casa de Maria é realizado através de recursos próprios, ou seja, pelas duas paróquias de Marechal Cândido Rondon – Paróquia Maria Mãe da Igreja e Paróquia Sagrado Coração de Jesus – e pelo Centro Assistencial da Diocese de Toledo. “Após termos o título de utilidade pública, que em Rondon, por força de lei, é concedido após um ano de atividade, a entidade iniciará o recebimento de verbas governamentais para a manutenção da casa”, diz o presidente da Casa de Maria. 

Como forma de auxiliar na manutenção das atividades foi criado o projeto “Adote uma criança”, por meio do qual a sociedade pode contribuir. “A entidade não tem fins lucrativos e sobrevive graças ao esforço de muitas pessoas. Não recebemos recursos públicos e tudo que oferecemos aos nossos pequenos usuários é fruto da generosidade de pessoas que acreditam no potencial transformador do projeto”, lembra o padre André Boffo Mendes, diretor espiritual da Casa de Maria.

Somando custos com funcionários, alimentação, limpeza e o zelo pela casa, o valor por criança fica em R$ 486,67 mensalmente e, por meio da campanha, pessoas físicas ou jurídicas podem contribuir, seja no valor integral ou parcial. “Nossos investimentos mensais são decorrentes de folha de pagamento de funcionários, alimentos e materiais pedagógicos. As doações recebidas dos nossos adotantes são a maneira que temos para continuar a oferecer um serviço diferenciado, humano e de qualidade. Toda e qualquer quantia é muito bem-vinda, e reforçamos a ideia de que todos podem e devem colaborar, inclusive as famílias dos nossos usuários, num processo de envolvimento solidário”, pontua.

Interessados em contribuir com a Casa de Maria podem ir até à instituição ou entrar em contato pelo telefone (45) 99861-0120.

Pilar comunitário

A comunidade rondonense tem desempenhado um elo de sustentação muito importante nas ações da Casa de Maria. Para o presidente da entidade, a aceitação do projeto surpreendeu positivamente e trouxe muitos benefícios para as crianças acolhidas. “Já recebemos diversas doações, como computadores para aulas de informática, uniformes para as crianças, kimonos para aulas de judô, instrumentos musicais, livros etc.”, compartilha.

Futuro em vista

Com o objetivo de expandir oportunidades e possibilidades para mais famílias, a entidade deve ganhar sede própria futuramente, com capacidade para atender 350 crianças. “Estamos em tratativas com o poder público para a cessão de uma área e também já desenhamos o primeiro projeto, que possui 4.100 m² de construção, onde teremos quadra poliesportiva, sala para judô, anfiteatro, espaços para profissionalização, recreação etc. Temos projetado também uma piscina semiolímpica aquecida e coberta, com arquibancada, para incentivar competições de natação, salto, nado sincronizado, etc”, finaliza Luiz Muller.

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