Transforme-se

Os ecos da Ocas: luta e reinclusão social se encontram na rua

Revista fruto de um projeto que busca tirar da condição de marginalizados pessoas em situação de vulnerabilidade torna-se alternativa de fonte de renda e de reconstrução social

Mais de 760 quilômetros me separavam de Cláudio Bongiovani Azevedo. A conversa via ligação de WhatsApp se fez suficiente (naquele momento) para encurtar as fronteiras entre Paraná e São Paulo. Uma tentativa. Sem sucesso. Na segunda, ele atende no terceiro toque. Do interior de sua quitinete, no Bairro Jabaquara (SP), ele aceitou meu convite e, juntos, reconstruímos cenas de uma história recente. Um enredo no qual ele é o protagonista.

A ligação – vale mencionar – utilizou apenas o recurso do áudio, portanto não conheci, nos primeiros momentos da conversa, os traços físicos que marcam os 69 anos de Cláudio. Por outro lado, poucas palavras trocadas foram suficientes para reconhecer uma de suas características mais marcantes: a comunicação. Para falar de sua vida não era necessário medo, vergonha ou receio.

Pegando carona nos aviões que sobrevoavam sua residência (em função da proximidade com o Aeroporto de Congonhas – e que, por vezes, causavam interferência no sinal na ligação -), nos transportamos para uma época onde sua vida perdeu contorno e sentidos.

O ano era 2000 e Cláudio morava com a esposa e os filhos em uma cidade no interior de Minas Gerais. Formado em Química e após ser dispensado do trabalho em uma siderúrgica, no qual estava há 20 anos, ele, sozinho, mudou-se para São Paulo para trabalhar em um novo negócio. Com a nova rotina, ele normalmente visitava a família a cada quinze dias. “Antes de uma dessas visitas quinzenais, minha mulher me ligou dizendo para eu não ir naquela semana porque eles iam para Goiás, na casa de um cunhado, passar uns dias na Festa do Milho. Eles foram para lá com um carro que eu havia comprado. Foi meu cunhado, minha sogra, um sobrinho de sete anos, minha esposa e meus três filhos. Eles foram, passaram uns dias e nisso minha filha me ligou pedindo para ir para Tocantins passar um tempo lá com a madrinha dela. Ela foi e o restante [dos familiares] voltou no dia 21 de maio de 2001”, conta. 

Na rodovia entre Goiás e Minas Gerais, o veículo em que a família de Cláudio estava se envolveu em um acidente e todos os ocupantes morreram carbonizados. “Eu estava em São Paulo e, quando cheguei lá, não consegui ver mais nada. Perdi meus dois meninos, um de dois anos e outro de quatro, minha esposa, além dos outros familiares”, diz.

Destroçado e transtornado diante da tragédia, ele não conseguiu nem mesmo participar do velório e do enterro dos familiares. Largou a casa e todo seu passado, fazendo da rua sua nova morada. “Mesmo com uma certa estrutura, entrei em uma depressão muito profunda e fiquei na rua por onze meses. Cheguei, num tempo, a pesar 30 quilos e ter um cabelo que pesava 60. A única coisa que me acalmava era tomar uma garrafa pet de pinga todo dia”, lembra.

Na rua, Cláudio experimentou todas as dores e dificuldades de estar sozinho e refém do alcoolismo. “Foi complicado, árduo, triste e doloroso. Eu não tinha perspectiva de vida. Simplesmente esperava que a vida acabasse. Não tinha noção do que ia fazer daqui a pouco. Eu andava por São Paulo o dia todo e à noite procurava um lugar menos perigoso para dormir, mas só conseguia isso totalmente alcoolizado porque caía em qualquer lugar e dormia, sem noção se poderia acordar no outro dia, sem perspectiva de que seria diferente”, relembra.

Algo que mudou após ele ser acolhido em um projeto social conduzido por um padre. Ali ele soube da possibilidade de trabalhar vendendo revistas através da Organização Civil de Ação Social (Ocas). “Fui na sede, me explicaram o projeto e me deram dez revistas para caso eu quisesse sair vender. Eu peguei, não achei nada de muito importante que poderia mudar minha vida naquele momento, mas em todo caso era um meio. A revista [na época] custava R$ 1 e a gente vendia por R$ 3. Ganhava R$ 2 em cada revista”, menciona.

“Foi através dela que eu consegui me reestruturar de novo. Se não tivesse ela, talvez eu não estaria aqui”

Ainda desanimado e sem perspectivas, não conseguiu vender as revistas. Antes de desistir, buscou auxílio nas reuniões realizadas com uma psicóloga pela Ocas” para conquistar, nas suas próprias palavras, “certa instabilidade emocional”. “Mas mesmo assim não conseguia vender. Então eu passei por um lugar chamado Itaú Cultural, aqui em São Paulo, e vi que tinha um vendedor que estava vendendo a revista. Pedi se ele queria as revistas porque, senão, eu as jogaria fora. Ele disse para eu não fazer isso e pediu se eu estava com fome. Eu disse que sim, ele comprou comida para nós e disse para eu ficar ali e ver como ele vendia as revistas. Eu observei e depois vendi sozinho. Desde então, de 2002, me tornei um dos melhores vendedores da revista, por isso eu digo que a Ocas foi minha base. Foi através dela que eu consegui me reestruturar de novo. Se não tivesse ela, talvez eu não estaria aqui”, afirma.

Lugar de transformação

Acostumados a mendigar, vender chicletes ou guardar carros por uns trocados, muitas outras pessoas em situação de rua em São Paulo encontraram, a exemplo de Cláudio, a oportunidade de reconstruir suas histórias através da venda da revista Ocas”. Criada em 2002 e inspirada na The Big Issue, da Inglaterra, a Ocas” foi a primeira publicação de rua (street paper) a surgir no Brasil.

A revista trimestral é produzida por uma equipe de profissionais, entre eles jornalistas, fotógrafos, editores e diagramadores, todos voluntários. Com uma tiragem de 3 mil exemplares, a Ocas” publica reportagens e ensaios nacionais e internacionais sobre cultura, comportamento, política, esporte e meio ambiente, além de reservar espaço para expressão dos vendedores e abordar questões relacionadas ao tema da exclusão social.

A publicação circula pelas ruas como um instrumento de geração de renda aos vendedores da revista, que a compram por R$ 3 e a vendem pelo preço de capa, R$ 8. A diferença, R$ 5, fica com o vendedor, sem intermediários. Além disso, todos os vendedores têm idade mínima de 18 anos, recebem treinamento, assinam um código de conduta e portam crachá. Atualmente, o projeto conta com 12 vendedores fixos. “É um projeto que essencialmente busca resgatar a dignidade das pessoas em situação de vulnerabilidade social para que elas possam ter uma oportunidade de, através das vendas da revista, se reinserir no mercado de trabalho, terem uma oportunidade de recomeçar depois de terem passado por uma situação de não ter um teto para se abrigar e conseguir se reinserirem na sociedade”, destaca a jornalista e presidente da Ocas”, Adriana Salerno Cruz.

A proposta da entidade é abrir um caminho para a reintegração social. Isso significa que a venda da Ocas” é um meio e não um destino para as pessoas em situação de sua. A intenção é fazer com que eles tenham contato com a população, que normalmente lhes vira as costas. “Eu acho que é uma forma, ainda que seja uma migalha, de tentar mudar o mundo e tornar principalmente as grandes cidades um lugar menos desumano, porque o problema da falta de moradia acho que afeta não só as metrópoles, mas principalmente as metrópoles. A revista ajuda a tirar aquela pessoa da invisibilidade, dá voz e recupera um pouco a humanidade. Faz com que quem tem contato com o projeto, quem compra a revista, passe a enxergar aquela pessoa que passou por uma situação de morar nas ruas mais como um ser humano e menos como um problema”, expõe.

“Eu acho que é uma forma, ainda que seja uma migalha, de tentar mudar o mundo e tornar principalmente as grandes cidades um lugar menos desumano”

Outro aspecto que o projeto procura abordar é a questão cultural. Através de uma rede de voluntários, a revista estimula a produção de conteúdo jornalístico que englobe os diferentes contextos sociais presentes na cidade onde é comercializada, para trazer ao leitor a realidade encontrada nesses centros urbanos e gerar um conhecimento e compreensão maiores sobre questões muitas vezes subexploradas pela mídia tradicional. “A gente tem de pensar que a Ocas é vendida em pontos culturais da cidade de São Paulo e qual é o público desses lugares. A Ocas não tem bandeira, não defende nenhum político. Ela defende as bandeiras dos Direitos Humanos, das minorias raciais e todas ligadas às lutas de igualdade e pautas sociais. A Ocas sempre vai colocar na capa uma pessoa, seja artista, cantora, escritora, que dialoga de alguma maneira com essas propostas, que tenha uma representatividade social”, aponta o jornalista e editor-chefe da publicação, Alan de Faria.

Um dos objetivos da Ocas” para viabilizar e até mesmo facilitar o trabalho dos vendedores é produzir edições que sejam atemporais. “Nós pensamos nisso porque os vendedores não carregam apenas a edição atual. Eles vendem as edições anteriores também. A gente se preocupa com essa atemporalidade porque a revista não é recolhida das bancas como Veja, Istoé, Piauí. Elas continuam nas ruas enquanto estiverem nas mãos dos vendedores, então o conteúdo precisa se adequar a isso”, salienta o editor.

Além disso, o amor ao projeto se traduz no voluntariado que é o combustível que alimenta a produção de cada edição da revista. Inclusive, tanto o editor-chefe da Ocas” quanto a atual presidente da organização iniciaram sua caminhada voluntária como repórteres da revista. “Não é complicado conseguir colaborações. As pessoas gostam da revista, então elas querem escrever e fazer reportagens. Esse é um ponto positivo. Jornalistas para colaborar, fotógrafos e designers, por exemplo, a gente tem bastante facilidade de encontrar”, enfatiza Adriana, que já colabora com a revista há quatro anos.

Reconstrução da dignidade

Se você chegou até aqui talvez tenha percebido e até questionado o motivo para a palavra Ocas” sempre aparecer acompanhada de aspas. Um símbolo tão simples, mas que carrega uma grande responsabilidade: o de dar voz. E é isso que a Ocas” faz ao resgatar o lugar de fala de pessoas que estão invisibilizadas na sociedade.

“As pessoas não fecham o vidro do carro quando passam na rua, fecham o vidro da insensibilidade porque não se preocupam com isso.”

Cláudio conheceu os dois lados dessa cruel realidade. Na rua, a visão estigmatizada, do preconceito e do desprezo. “Tem muitas pessoas inteligentes na rua. Mas é muito difícil para as pessoas ter um olhar diferente porque a sociedade tem um olhar totalmente generalizado para quem está em situação de rua. Generalizam aquele que está maltrapilho, sujo, alcoolizado com os outros. Todas as pessoas que estão em situação de rua têm histórias diferentes. As pessoas não fecham o vidro do carro quando passam na rua, fecham o vidro da insensibilidade porque não se preocupam com isso. Às vezes, a pessoa pode até receber uma doação, mas não uma palavra de conforto”, evidencia.

Fora dela, experimentou a humanização. Depois de acolhido por um projeto social, ele saiu das ruas e passou a morar em abrigos provisórios e albergues até conquistar o espaço próprio em que reside atualmente, graças ao seu trabalho com a revista. “A Ocas foi minha reintegração social, e é até hoje a minha alavanca. Foi uma das bases da minha vida, um ponto de apoio para eu deixar o vício e me deu um propósito quando eu não conseguia encontrar motivação. Me fez superar tudo o que eu passei”, ressalta. 

A Ocas” integra uma rede mundial de publicações vendidas por moradores de rua, a International Network of Street Newspapers (INSP). Foi através dela que, entre 2005 e 2009, Cláudio viajou por diversos países, como Suécia, Escócia, Portugal e Itália para ministrar palestras sobre revistas de rua. “A estrutura que ela me deu foi tão solidificada que eu costumo dizer que a Ocas me fez sair da calçada para a Europa”, sinaliza.

Antes da pandemia de Covid-19, ele se dedicava exclusivamente à venda da revista. Trabalhava de terça-feira a domingo e vendia de 300 a 400 revistas mensalmente, equivalente a uma média de R$ 700 e que, por muito tempo, foi sua única fonte de renda e sobrevivência. Além disso, também contribui, eventualmente, com textos para a revista. “Eu não estou apenas vendendo a revista. Estou conquistando pessoas, fazendo amizades, trocando informações, divulgando alguma coisa interessante”, entende.

Já atualmente, Cláudio equilibra o trabalho de vendedor da Ocas” aos fins de semana, em frente ao Petra Belas Artes e na Japan House, com o de divulgador externo em uma agência de marketing nos demais dias, e ainda faz horas extras como pai e avô. “Hoje eu trabalho com a revista por prazer, nem tanto por necessidade. Enquanto eu tiver forças, vou vender a Ocas. Sem ela eu seria uma pessoa comum. Com ela eu sou uma pessoa comum diferente”, frisa.

“Sem ela eu seria uma pessoa comum. Com ela eu sou uma pessoa comum diferente”

Doe para ir além

Em 2022, a Ocas” completa 20 anos. Na trajetória muitas conquistas, mas no futuro muitos desafios: o atual e principal deles é receber doações para viabilizar as edições. Como todo projeto de caráter colaborativo, a Ocas” só se faz possível em função do esforço conjunto de pessoas e entidades que buscam uma sociedade mais equitativa. Por isso, anúncios e doações são formas de apoiar essa iniciativa.

Hoje, para garantir a produção de quatro edições anuais, o projeto depende de um orçamento de R$ 20 a 25 mil. “Com mais doações e anunciantes, queremos transformar a Ocas” em uma publicação bimestral e, com isso, ter mais vendedores. Porque para conseguirmos mais vendedores, precisamos da garantia de que vamos ter revistas para eles”, ressalta o editor-chefe da publicação.

Além de comprar diretamente com os vendedores nas ruas, também é possível ter acesso ao conteúdo da Ocas” no formato PDF, por meio do site www.ocas.org.br/doareacao. Ao doar no mínimo R$ 8, você recebe a versão em PDF da edição mais atual em sua caixa de e-mail e ainda ajuda o projeto – metade do valor vai para a impressão das próximas edições e a outra para o vendedor da revista.

Para doações mensais financeiras e não financeiras, você pode clicar no link: https://www.ocas.org.br/doacoes-nao-financeiras. Qualquer quantidade é aceita.

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