Emprende-se

Honrando os moldes e tecendo novos e promissores caminhos

Saiba como a nova geração tem contribuído para a continuidade do segmento que deu subsistência e vida para Terra Roxa, no Oeste do Paraná, e como a experiência aliada à modernidade tem impulsionado o setor de moda bebê e garantido mais transformações sociais

Existem sons, cheiros, texturas e cores em comum que fazem parte da memória afetiva de muitos terrarroxenses. Pergunte sobre isso para os jovens adultos de Terra Roxa e vai escutar muitos relatos semelhantes. A pequena cidade do Oeste do Paraná, de pouco mais de 17 mil habitantes, tem hoje profissionais que tiveram infâncias similares em muitos aspectos: foram crianças que cresceram ouvindo máquinas de costura ligadas incessantemente, rolos de tecidos fofos empilhados pela casa, bordados mimosos ganhando vida em peças de roupas para “mini pessoinhas”. Um universo perfeito para brincadeiras que despertavam o imaginário dos pequenos. “Sentava no escritório da minha mãe e abria os catálogos de tecidos e aviamentos e ficava fazendo de conta que estava atendendo os representantes, fazendo pedidos. Adorava olhar as revistas da área. Minha avó costurava e eu lembro de levar tecidos da fábrica para ela costurar roupas para minhas bonecas”, relembra Jéssica Serra, diretora de criação e desenvolvimento de uma das 113 indústrias da cidade que são especializadas na confecção de roupas para bebês.

O “faz de conta” das crianças das décadas de 80 e 90 é a realidade de muitos diretores de fábricas e lojas atualmente. A história do município, que tem o título de “Capital Nacional da Moda Bebê” foi, naturalmente, sendo tecida assim: de pais para filhos. Os espectadores que assistiram de camarote as garagens de casa se transformarem em grandes empresas, hoje assumem papéis de liderança nos negócios das famílias. São eles os responsáveis pela costura dos próximos capítulos. Uma responsabilidade e tanto, já que cada roupinha fabricada até aqui ajudou numa transformação social impactante: de cidade da “bóia fria” que dependia essencialmente da agricultura, para um município referência nacional em um setor que emprega atualmente cerca de 3 mil pessoas diretamente e outras 2 mil indiretamente, de acordo com o APL (Arranjo Produtivo Local), impulsiona toda a economia local e tem potencial para bordar números ainda maiores.

Arrematando o que foi alinhavado

Se pensarmos nos processos que envolvem a confecção de uma peça de roupa, faz muito sentido considerar que esta geração está fazendo isto: costurando permanentemente depois de toda modelagem. Alinhavar significa “coser a ponto largo como preparo de costura que se fará depois com ponto miúdo e definitivo”. Toda trajetória percorrida pelos pais foi o alinhavo para os arremates que os filhos são capazes de dar daqui em diante. E foi na adolescência que boa parte dos filhos de donos de fábricas terrarroxenses começaram a assumir essas missões, numa fase cheia de dilemas sobre seguir outros rumos ou abraçar o caminho dos pais.

“Tive momentos de dizer que não queria trabalhar na empresa, pois sentia a ausência dos meus pais e não tinha maturidade para entender. Com o tempo essa compreensão mudou. Eu já me envolvia no trabalho, gostava de ajudar e aprender sobre os processos. Iniciei profissionalmente atuando na área de desenvolvimento de produto aos 17 anos, quando minha mãe precisou se ausentar por um período da empresa. Ela me chamou para uma conversa aberta e me perguntou se era o meu desejo trabalhar na criação das coleções com o time que fazia parte naquela época. Eu prontamente aceitei. Foi então que iniciei uma imersão nos processos, participava de todas as reuniões e tinha muito incentivo dos meus pais. Hoje atuo de forma direta nas áreas de Desenvolvimento de Produto, Marketing e Engenharia. Faço parte também do conselho administrativo da empresa. Em parceria com meu esposo e meus irmãos formamos um time de diretores que atuam em diferentes áreas do negócio”, conta Daiane Rossato Carvalho, diretora criativa do grupo Paraíso, empresa conhecida por dar o pontapé inicial nessa revolução têxtil e industrial.

 “Por muitos anos, durante a adolescência, planejei outros caminhos, até decidir realmente ficar. Aqui é minha casa, meu aconchego, onde eu me sinto feliz e realizada diariamente. Apesar de ser um sonho construído pelos meus pais, é como se ele fosse meu. Comecei ajudando na produção, depois minha mãe foi me ensinando partes do administrativo, até que me encontrei no marketing e na moda. Estudei, me especializei e trago todos os dias tudo o que aprendo aqui para dentro e para as pessoas ao meu redor, que contribuem com o nosso crescimento. Hoje, sou diretora criativa da empresa. Além de ser responsável por definir nossas coleções, também coordeno um time de aproximadamente 40 representantes que vendem as nossas marcas”, descreve Ariane Fedrigo, diretora criativa da Aconchego Moda Bebê.

             “Quando começou a ter cursos técnicos na área aqui em Terra Roxa, eu sempre era a mais novinha das turmas, com 12 anos já estava fazendo, eu adorava, fazia todos da área de criação e desenvolvimento. Na época era tudo desenhado à mão, ficava horas desenhando, pintando e assim foi fluindo até hoje. Sou responsável pelo setor de desenvolvimento e estilo. O essencial do que eu faço é cuidar do desenvolvimento das coleções, desde a elaboração, desenho até a finalização. Coordeno a equipe que me ajuda a dar conta de tudo, confiro e coloco minha mão em cada peça”, detalha Jéssica Serra, diretora de criação da Sonho Meu.

Do ritmo do pedal à velocidade dos botões 

As primeiras fábricas de moda bebê surgiram em Terra Roxa quando tudo ainda era feito de modo muito artesanal no ritmo das máquinas de costura de pedal e nos bordados feitos à mão. Muitos processos ainda preservam a delicadeza da confecção manual, mas a indústria têxtil evoluiu trazendo a automatização das tarefas e isso abriu possibilidades: a tecnologia foi inserida no segmento, permitindo expansão.

E essa é a nossa contribuição para que esse legado continue, para que as empresas se atualizem e se modernizem”

Está também entre as missões da nova geração dar às marcas de roupa infantil essa modernidade que o mercado pede sem deixar de lado a essência do cuidado com cada peça. A experiência dos pais alinhada ao frescor de ideias dos filhos têm potencializado o crescimento dos negócios. Basta olhar para o posicionamento das marcas na internet e ver quanto engajamento os novos gestores têm ganhado se aproximando mais do público, compreendendo as necessidades do mercado e inovando na criação de novos produtos e outras marcas dentro do mesmo grupo.

“Para dar continuidade à história que se formou em Terra Roxa tem que haver essa sucessão. Vejo de uma forma muito bacana, acho que na maioria das empresas aconteceu como aconteceu comigo e com meus irmãos: a gente foi crescendo dentro da fábrica e estamos aqui para manter essa história. Nossos pais vão adquirindo uma idade em que já não vão querer estar mais tão envolvidos. E essa é a nossa contribuição para que esse legado continue, para que as empresas se atualizem e se modernizem”, comenta Jéssica.

“Estamos dando vida para uma história que merece ser continuada com honra. No início tudo era muito mais desafiador. Hoje temos mais ferramentas e condições de fazer com que as possibilidades de crescimento e desenvolvimento sejam maiores e não há limites para o que podemos crescer. Somos jovens e inovadores, mas acima de tudo temos um espírito empreendedor nato, aprendido ao longo da vida. Temos grandes inspirações, profissionais preparados ao nosso lado. Temos feito um grande trabalho de cultura organizacional, implantando ao longo do tempo em conjunto com o próprio time, respeitando a essência da empresa, uma visão voltada para resultados, gestão por indicadores e principalmente a realização de planejamento estratégico com metodologias sustentáveis. Isso tem nos trazido grandes resultados, pois temos conseguido realizar mudanças necessárias juntamente com os colaboradores que são essenciais na sustentabilidade do negócio”, pontua Daiane.

O que pensam os pais

Sinto-me imensamente feliz vendo meus filhos seguindo meus passos e, porque não dizer, realizada! Afinal, ver a Daiane dando continuidade ao legado que há tantos anos viemos construindo me faz sentir que tudo o que eu e o Eugênio iniciamos há 30 anos foi realmente algo maravilhoso! Nossa empresa é um presente de Deus! É maravilhoso saber que além de meus filhos, tantas pessoas através dela podem continuar sonhando com um futuro promissor! Daiane juntamente com seu esposo abraçam com muito amor e competência a gestão desta empresa, que é como uma grande mãe para todos nós!” (Celma de Assis, presidente do grupo Paraíso)

“Fico muito orgulhosa e feliz em ver o desenvolvimento de minhas filhas na empresa. Elas foram criadas aqui dentro desde pequenas e a Ariane sempre se interessou muito pelo atendimento e pelas vendas, sempre muito comunicativa. Foi crescendo e aprendendo tudo, fez faculdade ligada ao marketing e desenvolvimento e também se especializou em moda. Tudo isso foi muito importante para o crescimento da empresa, pois juntou a minha experiência com as ideias novas dela que vieram muito ao encontro da nossa necessidade. Vejo o quanto ela tem visão do negócio e hoje fico muito tranquila em ver que já tenho uma sucessora e o sonho continua a crescer”, (Luciane Fedrigo, presidente da Aconchego do Bebê)

 Transformação social

            Quando a tecnologia é mencionada, um dos primeiros pensamentos é do impacto que isso pode ter para os empregos. Mas as fábricas terrarroxenses conseguiram ressignificar funções e formatos de trabalho e continuam gerando renda e fazendo a economia girar no município e na região. Um exemplo: só um único grupo que possui três marcas infantis emprega hoje 600 pessoas e acaba contratando outros tantos serviços indiretos.

“Eu pude acompanhar o quanto nosso município mudou, o quanto ele se desenvolveu. Hoje não trabalha aqui quem não quer trabalhar, porque falta mão de obra e sobra serviço nas mais diversas funções. Hoje a cidade é outra! Temos a escola técnica que é um modelo de escola voltada para indústria de moda no Brasil. Temos o centro de eventos, o parque industrial se desenhando, tem muita coisa pra evoluir, mas já tem um grande início”, descreve Jéssica.

“É daqui que sai o sustento de muitas famílias, o sonho do carro e da casa própria, a criação e estudo dos filhos. E além disso, a realização profissional, seja de uma costureira já experiente, ou a de um jovem que está iniciando agora como estagiário, mas sabe que pode crescer muito ainda dentro da empresa. Nos últimos anos, passamos por um processo de terceirização da nossa produção. Nesse período, muitos colaboradores internos se desligaram da empresa e tiveram a oportunidade de montar o seu próprio negócio para prestar serviços para nós, como facções de costura e bordado. E  isso não impacta somente a cidade de Terra Roxa, mas toda a região, pois hoje temos parceiros em Guaíra, Palotina, Cascavel, Altônia, Umuarama e muitas outras cidades”, relata Ariane.

“São negócios que nasceram para prestar algum tipo de serviço para nossa empresa e cresceram, sustentam outras famílias. É um ecossistema onde todos se beneficiam de alguma forma, mas porque sabem utilizar todo potencial próprio e agir na direção certa das oportunidades. Sempre fui muito a favor do desenvolvimento comum, aprendi isso pelo exemplo dos meus pais, que fizeram história na conquista do APL, o Arranjo Produtivo Local. Eles sempre enfatizaram e deram exemplo pelas atitudes. Já vi meus pais ajudarem muitos outros empresários com sentimento genuíno de contribuição. A admiração conquistada reflete isso, pois não é uma história de sucesso isolada e sim com espírito de contribuição social”,  finaliza Daiane.

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