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Além do tatame: o caminho do projeto que transforma vidas através do jiu-jitsu

Aprove Jiu-Jitsu mostra que o esporte supera técnicas e dá espaço a valores e esperança para construir e ressignificar histórias

Muito mais que golpes de artes marciais, praticar jiu-jitsu significa ganhar força na vida. Uma modalidade que esteve presente na trajetória de Ângelo Antônio dos Reis desde cedo. Aos 15 anos, depois de experimentar o judô, foi apresentado por um amigo ao jiu-jitsu, sem muitas expectativas no início. “Eu saía, eu bagunçava, era um moleque de rua praticamente. A minha cidade, Manaus, era perigosa, muito tráfico, muita coisa, vendo amigos morrendo novos, e eu ficava pensando se chegaria até os 20 anos e preocupado, minha mãe separada do meu pai não tinha aquele controle com a gente que acabava ficando muito na rua, ficava exposto”, conta.

A paixão pelo esporte, no entanto, foi arrebatadora e motivada especialmente por um aspecto: as competições. “Três meses depois que eu estava treinando direto, eu peguei gosto, eu aprendi e comecei a me destacar na minha categoria, comecei a ganhar campeonatos, a viajar, a ganhar vários títulos amazonenses e outros profissionais, também ganhei três eventos de MMA”, revela. Conquistas balizadas em valores do próprio esporte. “Tudo através do jiu-jitsu, que me ensinou a trabalhar respeito e disciplina, porque como eu era moleque de rua era uma coisa que eu não tinha. Eu aprendi que no tatame não tem o mais forte nem o mais fraco. Comecei a me adaptar com a derrota, mas sempre querer melhorar”, complementa.

O caminho trouxe Ângelo, hoje faixa-preta, para ser professor da modalidade no Projeto Aprove Jiu-Jitsu, de Marechal Cândido Rondon. A obra social é mantida pela Associação Projeto Vida e Esperança (Aprove) e oferece aulas gratuitas para crianças, adolescentes, jovens e adultos. Com quatro anos de atuação, o projeto que começou com cinco alunos, conta atualmente com 75 ativos e está com vagas abertas para novos participantes. São desde crianças de quatro anos até idosos. “A gente não acreditou logo no começo que ia ter tantos frutos como já tem hoje, e daqui a gente já formou alguns campeões profissionais do jiu-jitsu”, comemora.

“Os principais ensinamentos são respeito, humildade, disciplina e ajudar o próximo”

Ângelo Antônio dos Reis

Por meio da iniciativa, Ângelo transmite tudo que aprendeu sobre disciplina e trabalho coletivo com o esporte. “Os principais ensinamentos são respeito, humildade, disciplina e ajudar o próximo, mostrando que com isso a gente consegue ter pessoas melhores e mais humildes. O intuito do projeto é transformar e mudar pessoas e histórias e levar essas pessoas lá fora para mostrar de onde vieram e que tem uma saída, que tem uma segunda opção. Eu sempre falo que desistir não é uma opção. Então a gente mostra que não se pode desistir e tem que continuar, tem que perseverar, trabalhar duro. Se ele quer alcançar seu objetivo, traçar uma meta, ele tem que fazer o caminho e seguir. Hoje a gente trabalha com essa autossuperação de cada um”, enfatiza.

Por mais que o esporte leve o praticante ao chão durante as aulas, o objetivo final é sempre levantá-lo e impulsioná-lo. “É gratificante hoje você poder chegar aqui num treino no tatame lotado de pessoas, especialmente crianças. É motivador e pra gente isso não tem preço. Nós resgatamos várias pessoas que já ficaram com algum tipo de depressão que queriam desistir de tudo. Já tive aluno que estava envolvido com drogas, e que através do esporte conseguiu largar, mudar de vida e hoje trabalha e é um pai de família. Então o projeto trabalha nessas áreas, mudando a vida de muitas pessoas através dessa ferramenta de inclusão”, destaca.

Sonhos e influências

Além do sangue, Ângelo divide com a filha de 15 anos, Dandara Reis, a paixão pelo jiu-jitsu. Há sete anos no tatame, ela já sabe o que quer conquistar através do esporte. “Meu objetivo é ser campeã mundial e conseguir a faixa-preta”, diz.

Influenciada positivamente pelo pai e também professor, ela, que está faixa-verde, acumula ensinamentos. “Aprendi a ter respeito, disciplina e responsabilidade dentro e fora do tatame”, afirma. E filha de peixe, peixinha é. “Sinto muita adrenalina, principalmente nos campeonatos”, revela.

“Me ajuda no foco, emocional, aprendi a perder, ganhar, lutar no chão se cair, e isso é muito importante”

Isabella Zarichta

A colega de tatame, Isabella Zarichta, de 12 anos, divide alguns pontos em comum, como o desejo de ser campeã mundial. Na faixa-laranja, ela diz que o jiu-jitsu é uma arte de muito respeito. “O que aprende aqui dentro leva para fora. Me ajuda no foco, emocional, aprendi a perder, ganhar, lutar no chão se cair, e isso é muito importante. Por mais que seja difícil, desistir não é uma opção. Além disso, tem muitas pessoas, então dá para ter bastante amigos”, considera.

Vida e esperança

O Aprove Jiu-Jitsu Team é o projeto-piloto da Associação Projeto Vida e Esperança, que é composta por membros da Comunidade Emanuel. Logo, ele nasceu como um braço social que tem por objetivo trabalhar integralmente o corpo, a alma e o espírito. “A gente consegue tratar as mais diversas situações através do esporte porque ali tem conversa, diálogo, atividade física, tem compreensão, interação de várias situações que acontecem, então ajuda emocionalmente, fisicamente e também espiritualmente”, destaca Adailton Wild, pastor da Igreja Emanuel.

As aulas do projeto são realizadas em um espaço cedido pela igreja, parceira da associação, e todo o trabalho destinado a ele é realizado de forma voluntária. “Nós entendemos que é uma forma correta e legal de poder transformar e tocar a vida de tantos garotos, adolescentes e jovens. A gente tem relatos aqui de pessoas adultas que deixaram, por exemplo, o cigarro, que a gente sabe que talvez seja um dos vícios mais complexos, mais difíceis da pessoa deixar, mas que deixou através do esporte. Ele ficava envergonhado de chegar ali cheirando tabaco nos treinos e simplesmente com disciplina, com força de vontade, com apoio, conseguiu deixar o cigarro, ou seja, ganhou saúde e passou a ter uma rede de relacionamentos de amigos”, enfatiza.

Além do físico, os participantes também trabalham a mente e o espírito nas aulas de jiu-jitsu. No devocional, momento em que é feita uma pequena reflexão, crenças ou religiões não fazem distinções. “Não é voltado para a religião porque para nós ela é uma coisa que nesse momento não tem tanta importância. O que importa é a pessoa reconhecer que existe o criador, que existe um Deus que certamente criou todas as coisas e nos criou e que nós temos que ter relacionamento com ele e relacionamento com o próximo, ou seja eu tenho que amar a Deus, a mim mesmo e amar o próximo. Então aqui é um lugar onde a gente pode fazer isso. Onde a gente aprende respeito, honra, a reconhecer em Deus o criador. Porém, não falamos de religião. A pessoa não tem religião A, B ou C. A gente fala do criador e aí aprende princípios, valores, família, respeito. A gente se reúne no tatame e tem um momento na leitura do versículo, tem um momento às vezes de uma oração pedindo paz pedindo sobre a família de cada um. Se alguém tem alguma necessidade pode externar e pode falar. Então é um ambiente onde a gente socializa também esses princípios, esses valores cristãos.”, ressalta o pastor.

Integração com a família

O projeto valoriza a interação com as famílias e incentiva para que elas acompanhem a transformação dentro e fora do tatame. “As competições e os campeonatos acontecem com a família porque a gente convida os pais e os responsáveis para irem junto, para estarem perto. Então há muitos momentos em que a família se reúne aqui, e às vezes para podermos custear uma viagem a gente faz uma feijoada, um evento, um bazar. Então tudo isso vai integrando famílias que talvez teriam um relacionamento improvável, mas que acabam se juntando dentro de uma causa, dentro de um objetivo. Isso traz muitos resultados”, menciona Adailton.

Deise Mulling Closs é enfermeira, mãe do pequeno Benjamin, de quatro anos, e faz questão de acompanhar os treinos do filho. “A partir do momento em que meu filho pisou no tatame a vida dele não é mais igual. Mudou muito mesmo e para melhor. Ele tem bastante energia e aqui ele gasta. Ele brinca, se diverte, é feliz. Aprende brincando, tem responsabilidade e o professor é muito querido. Ele ainda não está lutando, mas está aprendendo todos os valores direcionados ao jiu-jitsu. É um faixa-branca, mas é também um faixa-preta em construção”, diz.

Novos projetos

Aumentar o braço social da Associação Projeto Vida e Esperança inclui novas ações. Afinal, um dos passos para garantir um futuro melhor é moldar as gerações mais novas para que elas façam a diferença. “O jiu-jitsu hoje é o carro-chefe, mas a ideia agora é incrementar e acrescentar outras modalidades e até mesmo as artes e a música. O próximo esporte vai ser o futsal, que é a grande linguagem esportiva da nossa cidade. Então nós temos um sonho de um projeto e estamos trabalhando para isso”, finaliza Adailton.

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