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A memória de uma cidade propagada pelas ondas do rádio

Há quase 20 anos, programa da rádio comunitária de Quatro Pontes abre espaço para que os pioneiros da cidade compartilhem suas histórias

“Nos próximos minutos, aumente o volume, chame as crianças e a família para escutar as histórias de antigamente. Está começando o quadro ‘Pioneiros em Destaque’. Entrevistas, bate-papo e muita história. Um resgate histórico e cultural do município de Quatro Pontes.”

Desde 2003, quem sintoniza na frequência 106.3 e ouve essa chamada na programação da Rádio Tropical FM já se prepara para fazer uma viagem ao passado. As conversas, conduzidas por Afonso Francener, diretor-presidente da rádio, podem ser ouvidas sempre aos sábados às 10 horas e são uma verdadeira preciosidade.

Filho de pioneiros, Afonso chegou em Quatro Pontes no ano de 1953, com apenas três meses de idade. A família, natural de Santa Catarina, foi uma das primeiras a desembarcar na região e ele mesmo recorda alguns causos daquela época. “Meus pais contam que o caminhão atolou no barro e a mudança toda levou uns 20 dias para ser feita, porque tinha que descarregar também porco e gado que vinham tudo junto. Lembro também que minha mãe tinha uma das primeiras vacas que dava leite, então o pessoal ia lá em casa buscar o leite para as crianças”.

Na adolescência, Afonso foi líder estudantil e neste período teve seu primeiro contato com o rádio. Anos mais tarde, fundou a Tropical FM, uma das primeiras rádios comunitárias do Oeste do Paraná, sendo a única emissora do município de Quatro Pontes. “Desde que a rádio iniciou, a gente já valorizava muito os pioneiros. Inclusive, alguns faleceram, não estão mais entre nós, mas a gente tem todo esse acervo de entrevistas de 19 anos atrás”, conta, ressaltando o quanto é importante preservar a memória de um lugar.

Entrevista com o pioneiro Teobaldo Uecker, de 85 anos.

Mais de 100 pioneiros já estiveram nos estúdios da rádio compartilhando seus relatos de quando “tudo ainda era mato” e a audiência do programa é grande, especialmente entre os jovens, que não fazem ideia de como eram as coisas antigamente. “Houve entrevistas fantásticas, que se tornaram históricas! Tem uma em que o pessoal se mata de ri porque fala do futebol, que era no chão, campo batido e também das brigas que dava, porque naquela época valia tudo e o pessoal levava muito a sério. Sem falar nos bolões que eram uma loucura”, lembra.

A jovem senhora Quatro Pontes

A história do município está diretamente ligada à Companhia Maripá, uma madeireira colonizadora que foi a responsável por derrubar a mata e trazer os primeiros colonos vindos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, no ano de 1951.

A extração de madeira, portanto, foi uma das primeiras atividades comerciais de Quatro Pontes, seguida pelo comércio dos produtos e também a cafeicultura, atividade que, em 1955, foi frustrada pela geada que queimou os cafezais e obrigou os colonos a plantarem milho e mandioca para subsistência. “A gente se alimentava de fubá, polenta e pão de milho. Pão de trigo, cuca e bolacha eram só em ocasiões especiais, no Natal ou aniversário de alguém”, recorda Afonso.

Inicialmente, Quatro Pontes era propriedade do município de Toledo, depois passou a pertencer a Marechal Cândido Rondon e somente em 1993 foi desmembrada, ganhando a autonomia que tem hoje.

Os pioneiros

“Quando morre um idoso, é como que se queimasse uma biblioteca”. A frase, atribuída ao poeta Hampaté Bah, do Mali, resume bem a relevância histórica do programa.

Sem as memórias que o senhor Edgar Heck, 89 anos, compartilhou, não teríamos como saber o que era servir ao Exército Brasileiro na década de 60, tampouco conheceríamos os bons tempos do “Brasil de Quatro Pontes”, época relatada por Eliseu Tonelli, em que os atletas da localidade eram destaque.

E como era a escola? Flávio Vendelino Scherer lembra bem, já que foi aluno da primeira turma da primeira escola quatropontense. E a política? Está fresquinha na memória do senhor Rudi Antônio Leobet, o primeiro prefeito do município.

Já Martin Washburger recorda da época em que não existia asfalto e a poeira era um problemão.

As boas lembranças da dona Cecília Hilda Müller, da Ilse Freiberger e do Flávio Finkler, do Seno Danilo Lunkes e até mesmo da Silvani Sott, a primeira criança nascida em Quatro Pontes, também já foram compartilhadas com os ouvintes do programa.

O papel da rádio comunitária

“Para você ter uma ideia, em 160 municípios do Paraná a rádio comunitária é o único meio de comunicação local”, conta Afonso, que também é fundador e atual presidente da Associação das Rádios Comunitárias do Oeste do Paraná. No Brasil, são 4.607 rádios comunitárias com licença para operar, segundo dados fornecidos pelo Governo Federal em janeiro de 2020.

A ideia central de uma rádio comunitária é atender a um bairro, vila ou cidade de pequeno porte, tanto que elas operam sempre em baixa potência (25wtts ERP).

De acordo com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, “a programação diária de uma rádio comunitária deve conter informação, lazer, manifestações culturais, artísticas e outros conteúdos que possam contribuir para o desenvolvimento da comunidade, sem discriminação de raça, religião, sexo, convicções político-partidárias e condições sociais. Qualquer cidadão da comunidade beneficiada deve ter o direito de emitir opiniões sobre quaisquer assuntos abordados na programação da emissora, bem como manifestar suas ideias, propostas, sugestões, reclamações ou reivindicações”.

Sendo assim, não restam dúvidas de que a Rádio Tropical FM de Quatro Pontes está cumprindo – e muito bem – o seu papel enquanto guardiã da memória local.

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